sábado, outubro 24, 2009

Há vida para além da Mátrika – Uma casa à beira do lago


Quando nos reencontramos, e, pelo meio de conversas e momentos de silêncio, os nossos olhares e vozes se encontram, e, ao de leve, se tocam, podemos, ambos, vislumbrar, que, no fundo do lago, do teu e do meu, se movem todos os medos e fantasmas, brilham o espanto e o deslumbramento, e também, aí, arde o desejo e se revelam todas as loucuras e sonhos.
Nesse momento sei que voltei a casa.







Olhar tudo como se fosse a primeira vez


Há dias de serenidade e dias de cólera, dias simples e dias confusos, dias de sonho e dias de pesadelo. Não podemos evitar os acontecimentos da vida, não podemos deixar de reagir e de sentir. Mas, se aceitarmos o que vem e observarmos o nosso interior, poderemos ver, com clareza, de onde brotam os nossos sentimentos, podemos chegar à raiz – aí, estamos em casa.

Então, poderemos ter aquele olhar que apreende a realidade, tal como ela é, sem necessidade de explicações, um olhar com o coração, que resulta de estarmos em paz com as diferentes matizes do nosso ser.

Esta última parte da frase representa, também, a possibilidade de oferecer uma nova oportunidade a nós e ao outro.

Representa a capacidade de renovação da natureza, a cada Primavera, do amor, após cada período de crise.

A este propósito, não posso deixar de me lembrar, com nostalgia, de uma passagem de uma das minhas músicas de sonho da juventude. Trata-se de Comming Around Again de Carly Simon. Há um momento em que ela afirma “So don’t mind if I fall apart. There´s more room in a broken heart.”

É este tipo de energia, de chama, que permite persistir nos nossos sonhos, que nos permite resistir ao longo do tempo, e superar os obstáculos. Ao nos renovarmos, tal como nos ciclos da natureza, permitimos que a vida e o amor perdurem.

Gostaria de completar estas ideias com mais um pormenor:

Na minha opinião, o primeiro olhar é um olhar completamente silencioso: olhamos o mundo, sentimos claramente com o coração, mas não entramos em explicações, em conceitos, em especulações ou julgamentos.

Este ponto, faz-me lembrar as várias filosofias e cosmogonias indianas que procuram ajudar o ser humano na sua busca. Na minha opinião, uma das escolas de pensamento indiana mais interessante e profunda é o Shaivismo de Caxemira. Dentro desta escola, temos uma linha de pensamento conhecida por Trika. Para esta linha, um dos aspectos que aprisiona o ser humano é a linguagem, i.e., as palavras. Esta linha entende que o ser humano vive aprisionado pelas palavras, pelo seu significado, dado que todo o raciocínio é construído a partir de ideias/ conceitos/ palavras.

De uma forma simbólica, a Trika explica que esta circunstância limitadora é chamada de Mátrika (uma rede intricada de palavras que cria, no ser humano, um véu ilusório que o impede de ver a realidade tal como ela é). A Trika acrescenta que, por detrás de cada letra do alfabeto, existe uma deusa cujo papel é fazer com que o significado de cada som (letra/ palavra) seja percebido de forma distorcida pela mente humana.
A este propósito, não posso deixar de me lembrar daquela frase que afirma que devemos ficar calados se aquilo que tivermos para dizer não for mais belo do que o silêncio…

Bem, tendo isso em conta, e dada a verborreia dos últimos posts, só posso concluir que ainda tenho muito a aprender no que respeita à arte do silêncio…

De facto, falar é fácil… Vamos lá ver, quando desligar o computador, me levantar da secretária e sair por aí, o que guardará a vida para este coração desejoso de poder voltar para casa!


Voltar para casa


Para mim, voltar para casa é encontrar / ou reencontrar a nossa alma. É encontrar ou recuperar toda e qualquer circunstância na qual nos sintamos à vontade e em profunda sintonia connosco próprios e com aquilo que nos rodeia.

Estar em casa é aceitar o nosso corpo, as nossas emoções, os nossos pensamentos, tudo aquilo que somos. Estar em casa é, também, ser acolhido pelas pessoas importantes da nossa vida, sentir que os nossos sentimentos, quer os achemos positivos ou negativos, bons ou maus, são aceites pelo outro e que essa aceitação permite compreendermo-nos melhor.


Conhecermo-nos e sabermos quem somos, aceitar e perceber porque sentimos as coisas de uma determinada maneira, porque reagimos de certa forma, e por aí fora, não é algo que façamos sozinhos. Precisamos dos outros, precisamos que eles reflictam os nossos sorrisos e as nossas lágrimas, os nossos medos e os nossos sonhos.


Estar em casa é estar com tudo isso, com tudo aquilo que gostamos em nós e também com aquilo que não gostamos.


O caminho de volta para casa é o caminho de volta para o nosso interior que, muitas vezes, ao longo da vida, fica esquecido.

Percorrer muitas estradas


Para mim, percorrer muitas estradas, na frase deste autor, espelha a infinitude de possibilidades que a vida nos oferece, na busca dos nossos desejos. Significa, também, que a possibilidade de errar está sempre presente. Entretanto, muitas vezes, são os nossos erros que nos conduzem a resultados surpreendentes – um melhor conhecimento de nós próprios e do outro, uma maior aceitação de tudo o que somos e não somos.

É, pois, o outro que nos revela a nossa própria essência – sabemos quem somos ao nos relacionarmos, ao dialogarmos com a vida, nessa permanente troca.


As pessoas que encontramos, as experiências que vivemos, o porquê de termos feito determinadas escolhas e aonde elas nos trouxeram, tudo isso vai construindo a história da nossa vida, espelhando os nossos sonhos, medos, anseios e desejos.

T.S. Eliot


A frase abaixo, publicada na sexta-feira, dia 16, de T.S. Eliot, é das mais bonitas que conheço.

Fala-nos sobre a possibilidade de busca do outro (e o outro pode ser muita “coisa”: a nossa alma gémea, a realização profissional, o desenvolvimento de qualquer projecto, o nosso Eu mais profundo, o Divino, a felicidade, tudo isto, ou nada disto…), do sair para fora de nós – “percorrer muitas estradas”.

Fala-nos sobre a possibilidade de voltarmos ao nosso centro, à nossa alma, àquele local interior onde estamos plenamente à vontade com tudo aquilo que somos – os nossos defeitos, as nossas qualidades, a nossa história pessoal, sonhos, medos, desejos e loucuras – “ voltar para casa”.

E fala-nos, também, sobre o resultado desse “diálogo” entre o exterior e o interior: a possibilidade de renascermos e de olharmos a vida sem preconceitos, sem ideias formatadas ou pré concebidas, deixando o coração perceber e sentir o que se passa – em nós próprios e ao nosso redor – e permitindo que a nossa percepção da vida, dos outros e de nós próprios se renove. Podemos sempre recomeçar, renovando-nos e olhando para a vida sem expectativas, aceitando o que quer que encontremos, e aplicando toda a energia e magia que envolve o início, o começo – “ olhar tudo como se fosse a primeira vez”.

Vejo este processo como um continuum, como um diálogo que dura uma vida.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Música ouvida tão profundamente
Que não é mais ouvida, mas tu és a música
Enquanto ela dura

T.S. Eliot


http://www.youtube.com/watch?v=E_4RLe2z3Po&feature=related