Há dias de serenidade e dias de cólera, dias simples e dias confusos, dias de sonho e dias de pesadelo. Não podemos evitar os acontecimentos da vida, não podemos deixar de reagir e de sentir. Mas, se aceitarmos o que vem e observarmos o nosso interior, poderemos ver, com clareza, de onde brotam os nossos sentimentos, podemos chegar à raiz – aí, estamos em casa.
Então, poderemos ter aquele olhar que apreende a realidade, tal como ela é, sem necessidade de explicações, um olhar com o coração, que resulta de estarmos em paz com as diferentes matizes do nosso ser.
Esta última parte da frase representa, também, a possibilidade de oferecer uma nova oportunidade a nós e ao outro.
Representa a capacidade de renovação da natureza, a cada Primavera, do amor, após cada período de crise.
A este propósito, não posso deixar de me lembrar, com nostalgia, de uma passagem de uma das minhas músicas de sonho da juventude. Trata-se de Comming Around Again de Carly Simon. Há um momento em que ela afirma “So don’t mind if I fall apart. There´s more room in a broken heart.”
É este tipo de energia, de chama, que permite persistir nos nossos sonhos, que nos permite resistir ao longo do tempo, e superar os obstáculos. Ao nos renovarmos, tal como nos ciclos da natureza, permitimos que a vida e o amor perdurem.
Gostaria de completar estas ideias com mais um pormenor:
Na minha opinião, o primeiro olhar é um olhar completamente silencioso: olhamos o mundo, sentimos claramente com o coração, mas não entramos em explicações, em conceitos, em especulações ou julgamentos.
Este ponto, faz-me lembrar as várias filosofias e cosmogonias indianas que procuram ajudar o ser humano na sua busca. Na minha opinião, uma das escolas de pensamento indiana mais interessante e profunda é o Shaivismo de Caxemira. Dentro desta escola, temos uma linha de pensamento conhecida por Trika. Para esta linha, um dos aspectos que aprisiona o ser humano é a linguagem, i.e., as palavras. Esta linha entende que o ser humano vive aprisionado pelas palavras, pelo seu significado, dado que todo o raciocínio é construído a partir de ideias/ conceitos/ palavras.
De uma forma simbólica, a Trika explica que esta circunstância limitadora é chamada de Mátrika (uma rede intricada de palavras que cria, no ser humano, um véu ilusório que o impede de ver a realidade tal como ela é). A Trika acrescenta que, por detrás de cada letra do alfabeto, existe uma deusa cujo papel é fazer com que o significado de cada som (letra/ palavra) seja percebido de forma distorcida pela mente humana.
A este propósito, não posso deixar de me lembrar daquela frase que afirma que devemos ficar calados se aquilo que tivermos para dizer não for mais belo do que o silêncio…
Bem, tendo isso em conta, e dada a verborreia dos últimos posts, só posso concluir que ainda tenho muito a aprender no que respeita à arte do silêncio…
De facto, falar é fácil… Vamos lá ver, quando desligar o computador, me levantar da secretária e sair por aí, o que guardará a vida para este coração desejoso de poder voltar para casa!